sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Jacquard nas meias...e não só!!!



A sessão de hoje, do “meias sem espinhas” abordou um os temas “quentes” dentro do Universo das meias: o jacquard!
O jacquard é, em abono da verdade, uma modalidade de stranded knitting, dentro da técnica mais vasta que é o colorwork, no tricot.
Colorwork, à letra, “trabalho com cor”, ao qual eu chamo, à portuguesa e carinhosamente, Tricot Colorido (tenho até uma mini-série de vídeos sobre esta temática, sendo que, ainda faltam alguns, que estão em lista de espera para gravação!), é uma técnica no tricot que permite trabalhar com mais do que um fio, ao mesmo tempo, de cores diferentes, conferindo um resultado absolutamente fantástico, multicolorido e gracioso às peças tricotadas em Tricot.
Por sua vez, dentro dessa técnica mais vasta que é o colorwork, podemos encontrar outras mais específicas, como o stranded knitting, a intarsia, as stripes (riscas horizontais no tricot), o double knitting (tricot duplo), o slip stitch e o mosaic stitch (estes dois últimos, relacionados com as malhas passadas). Embora tecnicamente não seja verdadeiro colorwork, costumo associar a esta categoria mais vasta do tricot, de trabalho com cor, o bordado no tricot (swiss darning ou duplicate stitch) onde podemos bordar motivos no trabalho, depois de estar totalmente tecido. O bordado no tricot é uma alternativa a padrões/motivos de intarsia , jacquard ou fair isle para todas as tricotadeiras que ainda não se sintam suficientemente confiantes nesse tipo de técnicas!
No que concerne ao stranded knitting, em que o avesso do trabalho fica com fios “esticados”, literalmente, (daí a expressão “stranded”), o mesmo enquadra dois tipos de técnicas: o jacquard e o fair isle. Ambos são modalidades de stranded knitting e trabalham com duas cores de cada vez e ao mesmo tempo; no entanto, enquanto no jacquard encontramos motivos a 2 cores (uma principal e a outra contrastante) por todo o padrão de stranded knitting, já o fair isle permite padrões multicoloridos, com muitas cores mesmo (nalguns motivos, dezenas!!!), que se conjugam pela extensão do trabalho, trabalhadas, também, como já disse, duas de cada vez!
Os pontos utilizados são os pontos básicos no tricot: a liga, no avesso e a meia, no direito.
Podemos trabalhar jacquard em carreiras de ida e volta ou em circular (já o fair isle, um aperfeiçoamento da técnica de jacquard, desenvolvida numas ilhas, na costa do Reino Unido, chamadas, precisamente, Fair Isle, permite tecer os motivos em stranded knitting sempre em circular, o que facilita, sobremaneira, quer a leitura dos gráficos, quer a tensão e manuseamento dos fios que se vão tecendo e entrelaçando entre si! Mais!!! Graças a essa forma de tecer, podemos inclusivamente cortar o nosso tricot (sim, “meter a tesoura”!), nos afamados (mas também temidos!) steeks no fair isle!
Os gráficos de stranded knitting são bastante parecidos com gráficos de ponto cruz; cada quadrícula, no sentido do comprimento, representa o número de malhas pelo qual o motivo se repete na largura e, no sentido da altura, representa o número de carreiras/voltas pelo qual o motivo se tece.
Lêem-se no sentido que se tece, isto é, nas carreiras/voltas do lado do direito, tecidas em meia, o gráfico do motivo lê-se da direita para a esquerda; nas carreiras/voltas do lado do avesso, o gráfico lê-se da esquerda para a direita. Este “guia de percurso e leitura” no gráficos de stranded knitting é bastante útil se quisermos que o nosso desenho no trabalho fique tal como é representado no gráfico.
Uma das maiores dificuldades neste tipo de técnica tem a ver com manusear, ao mesmo tempo, dois fios de cores diferentes. Até porque os fios têm uma enorme tendência de se emaranhar entre si!!! Para este problema, recomendo ir separando os fios à medida que eles se vão emaranhando ou então colocar cada novelo num recipiente distinto (tigela de tricot, cesto, saco, entre outras possibilidades) para ajudar no momento de separar os fios.
Existem diversas formas de segurar o fio:
  1. ir trocando o fio, que se enlaça ao pescoço, alternadamente, de cada vez que se muda de cor;
  2. enlaçar os dois fios, ao mesmo tempo, à volta do pescoço e ir alternando (no dedo da tensão e nas agulhas) pelo fio que se vai utilizar;
  3. enlaçar um dos fios no pescoço e o outro no alfinete ao peito (alternando, no dedo da tensão e nas agulhas, pelo fio que se vai utilizar);
  4. ter dois alfinetes, um de cada lado do peito e enlaçar aí, cada um dos fios (alternando, no dedo da tensão e nas agulhas, pelo fio que se vai utilizar);
  5. ter os fios apenas nas mãos (técnica continental) e ir utilizando/puxando apenas o fio com que se tece, ficando o outro em espera;
  6. ter os dois fios nas mãos, cada um enlaçado em sua mão e trabalhar, ora com um, ora com o outro, de acordo com o gráfico;
  7. Utilizar um anel guia/orientador de fio (yarn guide ring), o qual permite enlaçar os fios e utilizar aquele que é necessário de acordo com o gráfico.
Outra dificuldade sentida neste tipo de técnica está relacionada com a tensão do fio. Na verdade, os fios que ficam “esticados” no avesso do nosso trabalho, têm de possuir a tensão adequada e necessária (nem mais, nem menos!), caso contrário, o nosso trabalho ficará com fios pendurados no avesso ou então repuxado e sem elasticidade ao vestir - o que terá de ser evitado, a qualquer custo, em peças como meias! Assim, é necessário que, ao tecer, se confira a “folga” necessária ao fio que ficará esticado pelo avesso, para que o trabalho fique perfeito, com a elasticidade normal e similar à do restante trabalho e sem ter um aspecto repuxado. Para tal, basta utilizar um dos seguintes truques:
  1. ao mudar de cor, ajeitar as malhas tecidas, na cor anterior, nas agulhas, de forma a que não fiquem demasiado juntas, nem demasiado afastadas...e somente assim, puxar o fio da cor nova que se vai utilizar, abarcando essa distância das malhas tecidas na outra cor; desta forma, o fio que ora puxamos, ficará com a “folga” necessária à distância que aquelas malhas representam;
  2. um outro truque ou dica será tricotar a peça pelo lado do avesso pois, deste modo, o lado que está virado para fora (neste caso, o avesso) tem uma circunferência superior à da parte que está para dentro (neste caso, o lado do direito). Assim, ao esticarmos o fio, a “folga” necessária será conferida ao trabalho.
Quando se utilize este último método, e no que toca a tricotar meias, deverá ter-se em atenção as inclinações dos mates que se farão na zona do tornozelo (no calcanhar reforçado) e na biqueira. Na verdade, o mate simples ou o SSK (slip, slip, knit) é um mate que se tece pelo direito e tem inclinação à esquerda; já os dois pontos juntos em meia, que também se tece pelo direito, tem inclinação à direita. Quando tricotamos a meia pelo lado do avesso, estas inclinações têm de ser respeitadas de modo a que fiquem iguais quando a meia estiver do lado do direito! Para que tal aconteça, quando precisarmos que o nosso mate (feito pelo lado do avesso) tenha inclinação à esquerda, tricotamos dois pontos juntos em liga torcida (pelo anel de trás); quando quisermos que o mate tenha inclinação à direita, tecemos dois pontos juntos em liga!
Finalmente, e quanto à forma de puxar o fio para ser trabalhado, é muito simples! Basta que puxemos o fio, de onde ele se apresenta e o tricotemos pois, ao alternar entre as duas cores, os próprios fios vão-se entrelaçando entre si e esticando pelo avesso e reforçando o nosso trabalho, sem necessidade de os enrolarmos entre si... o truque é mesmo puxar o fio de onde ele se apresenta e tecer, o número de malhas que o gráfico “mandar”, conferindo a “folga” necessária para não repuxar nem ficar frouxo!
E agora, digam-me lá, não ficou bem mais simples tricotar padrões/motivos de stranded knitting?
Para praticarem, criei uma pequena receita de uma amostra que podem tricotar para consolidar tudo o que foi abordado. Abaixo, segue o respectivo gráfico. (Para facilitar, criei um gráfico em que a numeração indica a partir de onde se deve ler o gráfico (as carreiras ímpares, que serão tecidas do direito, lêem-se da direita para a esquerda; as carreiras pares, que serão tecidas do avesso, lêem-se da esquerda para a direita!)
Devem montar 20 malhas nas vossas agulhas e tricotar 4 carreiras em liga do direito e do avesso. Depois, do lado do direito, tricotar 3 ligas, 14 meias e 3 ligas. Tricotar o avesso todo em liga. Repetir esta duas carreiras mais uma vez. Iniciar o motivo 1 em jacquard (tricotando em meia pelo direito e em liga pelo avesso), seguindo o gráfico acima e utilizando as cores (principal e contrastante) como indicado. Tricotar, do lado do direito, 3 ligas, 14 meias e 3 ligas; do lado do avesso, tudo em liga; repetir estas duas carreiras mais uma vez. Iniciar o motivo 2 em jacquard (tricotando em meia pelo direito e em liga pelo avesso), seguindo o gráfico acima e utilizando as cores (principal e contrastante) como indicado. Tricotar, do lado do direito, 3 ligas, 14 meias e 3 ligas; do lado do avesso, tudo em liga; repetir estas duas carreiras mais uma vez. Tricotar 4 carreiras em liga do direito e do avesso. Rematar.
Deixem os vossos comentários, sugestões ou dúvidas nos comentários abaixo; terei todo o gosto em vos ajudar a “descomplicar” o tricot a 2 cores!!!
Ah!!! E partilhem aqui também fotos das vossas amostras, treinando esta técnica!
Grata a todas! Bons tricots!!! Boas inspirações!!!

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